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Análise do Crash Bandicoot N. Sane Trilogy

Um poderoso compilado de emoções que despertam após 20 anos de sono

Foram sete anos de intervalo desde a última aparição de Crash – em um jogo mobile ainda por cima – e mais de duas décadas de sono, após ver uma franquia tão querida perder seu rumo, sua essência e seu charme com o tempo. Mudanças na equipe de desenvolvimento, turbulências na Activision, rumores infundados e outras especulações prolongaram o hiato de um dos mascotes mais queridos dos video games.
Nascido no primeiro PlayStation, Crash Bandicoot já representou para a marca o que Mario simboliza para a Nintendo, Sonic para a SEGA e Master Chief, de Halo, para o Xbox. O marsupial era o Kratos da Sony em 1996, personagem que fazia os jogadores se lembrarem da marca, quando a plataforma da empresa, uma novata em consoles domésticos, era um patinho feio sem mascote, sem alguém para estampá-la ao mundo.
Em apenas três anos, Crash Bandicoot, Crash Bandicoot 2: Cortex Strikes Back e Crash Bandicoot 3: Warped formaram uma trilogia de ouro no primeiro PlayStation e mostraram que simplicidade pode ser o grande charme de um produto de entretenimento, mesmo que isso aconteça em detrimento de um primor técnico. Agora, duas décadas depois, N. Sane Trilogy é o pacotão que reúne esses três clássicos remasterizados no PlayStation 4. E será que essa nostalgia foi bem atendida? Parafraseando o ditado: o hype é nosso pastor e nada nos faltará.

Em uma galáxia distante, quando nem DualShock existia...

O marsupial estreou no PS1 em 1996, quando ainda nem existia DualShock e o controle original do sistema tinha aquelas asas saltadas sem os analógicos. Nas mãos de uma ainda desconhecida Naughty Dog, que já se chamou Jam Software antes dos anos 90, Crash Bandicoot não tinha dimensão do peso que carregava nas costas ao se transformar no mascote da marca PlayStation sem querer querendo e, de quebra, projetar a desenvolvedora ao mundo, a mesma que viria a assinar Jak and DaxterUncharted e The Last of Us posteriormente.
É uma pena que o personagem tenha ficado no meio de um redemoinho após esses tempos áureos. Crash passou pelas mãos de tudo que é publisher: Universal, Vivendi, Sierra e até mesmo Konami jogaram o abacaxi pra lá e pra cá até que ele parou nas mãos da Activision e lá está desde 2008. Mas convenhamos: ela não está aproveitando muito bem essa joia rara que tem nas mãos, né? Quase foi parar no museu. Até teve seus lampejos com Mind Over Mutant e Nitro Kart no mobile, mas só agora, em 2017, o Crash que todos queríamos ver, ou melhor, rever, está aqui.
A Activision foi honesta desde o começo ao dizer que a coletânea é um remaster dos três jogos, e não um remake
Em um acordo entre Sony, Activision e a desenvolvedora Vicarious Visions, Crash Bandicoot N. Sane Trilogy foi anunciado na PlayStation Experience de 2016 e lançado agora ao PS4 com um respeito absoluto à trilogia original, além, é claro, daquele upgrade absurdo no visual. A Activision foi honesta desde o começo ao dizer que a coletânea é um remaster dos três jogos, e não um remake, pois é exatamente isso que vemos aqui em termos de gameplay: um trio de ferro idêntico aos jogos vistos em 96, 97 e 98.

Nostalgia vs. primor técnico: até quando?

Não há absolutamente qualquer mudança na estrutura de jogo, no level design das fases ou no gameplay. A geometria, a sincronização dos movimentos e até mesmo a física foram seguidas à risca e obedeceram aos mecanismos que a Naughty Dog impôs em 96. Ainda assim, alguns pequenos detalhes poderiam ser ajustados, como as bordas das beiradas de algumas plataformas, um tanto arredondadas, e a física de Crash quando ele está no gelo, que está mais escorregadio aqui, especialmente no segundo jogo. Mas, de um modo geral, isso raramente vai incomodar, porque mantém o grau de desafio dos originais. Tudo que a Sony e a Activision prometeram está aqui na medida certa, sem mais nem menos.
Não é só Dragon Ball FighterZ que tem soco de nostalgia não: aquelas lembranças eternas da trilogia original de Crash despertam de um longo sono da melhor forma possível. Lágrimas de nostalgia farão você marejar ao ver que o marsupial:
  • Foge de uma pedra gigante ou de um rinoceronte enquanto salta por obstáculos;
  • Transita para o 2D e segue em side-scrolling no mesmo ritmo frenético, incluindo as fases bônus;
  • Atravessa rios usando uma prancha motorizada enquanto desvia de troncos, bombas, plantas carnívoras e outros contratempos;
  • Cruza fases inteiras usando um suíno, um urso ou uma moto;
  • Usa um equipamento de mergulhador para desbravar os confins do oceano em fases aquáticas inspiradas nas telas submersas do Super Mario World;
  • Faz caretas e bocas enquanto executa tudo isso;
  • E o resto que você já conhece.
Percebe? Essa simpática variedade de ações pavimentou a essência que permeia a atmosfera de Crash Bandicoot, sempre muito arcade, rápido, carismático e descompromissado. Quem ainda não conhece corre o "risco" de adorar.
São três clássicos de visual redesenhado, com destaque nos chefes, que respeitam o estilo caricato dos originais mantendo o glamour da alta definição
Mas há, sim, uma novidade que quebra um pouco o protocolo: Coco, a irmã de Crash, está jogável em todos os títulos! Você pode controlar a parceira do herói em quase todas as fases, com exceção dos estágios que foram designados exclusivamente a um deles, algo que acontece especialmente no terceiro jogo.
Os níveis dela no game que fecha a trilogia, aliás, são alguns dos favoritos dos fãs. Tem como se esquecer daquele tigre correndo a milhão em um cenário com temática da mitologia chinesa, ou das engenhosas fases em jet-ski? Fala sério, eu estava sedento para reviver isso na gloriosa resolução que esses jogos merecem.
Por falar em visual, eis aqui, no final das contas, o motivo da existência dessa trilogia remasterizada: entregar os três clássicos em gráficos completamente atualizados, construídos a partir das bases dos títulos originais, mas totalmente redesenhados.
E isso vai desde os personagens principais até os cenários tridimensionais e bidimensionais, com especial destaque para os chefões, que respeitam o estilo caricato das versões originais mantendo o glamour da alta definição. Sim, você vai se regozijar ao coletar todos os diamantes, tudo de novo, só para atingir a porcentagem máxima (que pode passar dos 100%, para quem não se lembra) e assistir ao final verdadeiro.
Donos de um PS4 Pro vão desfrutar disso tudo com HDR e upscale para 4K. Papu-Papu, Tiny Tiger, Koala Kong, Pinstripe Potoroo e Ripper Roo são apenas alguns dos bosses capazes de produzir lágrimas de nostalgia aos fãs que estavam órfãos e que sentiam saudades dessa fórmula, que está, infelizmente, em baixa no mercado.

O tiro certeiro no saudosismo

Crash Bandicoot N. Sane Trilogy é um tiro certeiro no coração de todos nós, vindo diretamente da flecha do cupido da nostalgia. Se há um anjo responsável por esse sentimento, talvez seja o cupido mesmo. Senti isso logo que comecei a jogar, dois dias antes do lançamento, graças à loja Bacana Games, que conseguiu a coletânea com essa antecedência.
Com alguns detalhes que podem ser perfeitamente ajustados através de atualizações, a Vicarious Visions deliberadamente criou uma coletânea muito mais voltada ao espírito saudosista do que ao ar da novidade.
Existem toques artísticos que denotam avanços na fórmula, mas ela está praticamente intacta, exatamente como nasceu, 20 anos atrás, o que pode afastar ou não agradar tanto as novas gerações de jogadores.
Mas eu palpitei ali em cima: há o "risco" disso acontecer sim e de a massa contemporânea de jogadores endeusar Crash igual nós idolatramos no passado. Não com a mesma intensidade, naturalmente, mas talvez com o mesmo encanto. E esse seria um "risco" entre aspas, pois é um risco saudável.
Crash é simples e modesto, e é justamente essa simplicidade que dá o charme e o carisma pelos quais a série ficou tão conhecida
Infelizmente, o gênero de plataforma caiu em desuso com o tempo. E Crash segue um estilo particularmente diferente dentro de tudo que há nesse gênero: é um jogo extremamente linear, simples e modesto, e é justamente essa simplicidade que dá o charme e o carisma pelos quais a série ficou tão conhecida.
Quando Crash Bandicoot foi lançado em 1996 no PS1, eu tinha apenas 9 anos de idade. Hoje, com 30, me sinto honrado em poder analisar o que não pude à época. Regressar 20 anos e retomar o presente, unindo as duas coisas em um único ponto de intersecção, me fez saborear um gosto doce e agradável: o da diversão. Sem chatices técnicas de resolução, taxa de quadros por segundo ou exclusividade. Eu torço, aliás, para que essa trilogia remasterizada chegue ao Xbox One, ao PC e ao Switch, pois todos merecem provar esse sabor.
Portanto, entenda a nota como uma soma do capricho técnico que as remasterizações apresentam e o fator nostalgia, que tem forte apelo aqui. O montante agregado também vale cada centavo: por R$ 150 (considerando o valor de novidade, que cai com o tempo), preço mais barato que o de um único lançamento, você tem três títulos completos, cada qual com seu próprio conjunto de troféus e platinas (três platinas, sim!). Cada jogo é sempre uma experiência muito particular a cada um de nós. Sinta-se à vontade para trocar uma ideia pacífica nos comentários. A nota que eu dei aqui é aquela que não pude dar 20 anos atrás.

Coleção imprescindível

Crash Bandicoot não se coloca acima ou abaixo de Super Mario 64Spyro the DragonJak and Daxter, também da Naughty Dog, ou outros similares daquele finalzinho da década de 90 e começo dos anos 2000. São títulos que compartilham cores vibrantes e personagens caricatos em propostas de aventura parecidas em intenção, mas muito diferentes em execução.
Crash é humilde o suficiente para saber de suas limitações técnicas. Quando foi além e embarcou em abordagens mais ousadas nas mãos de um monte de publishers e desenvolvedoras diferentes, acabou se perdendo. Agora, enfim, o marsupial volta ao estilo que o consagrou e à casa que o projetou. Uma elegância peculiar, que ninguém conseguiu imitar direito e que os chatos de plantão adoram criticar.
Quem teve o impacto de outrora vai reviver a gloriosa trilogia com um sorriso de orelha a orelha. Quem não teve ganha uma oportunidade de ouro, embora seja difícil empurrar a fórmula a novas gerações que viram tantas coisas robustas ao longo de todos esses anos. Talvez não exista uma resposta cirúrgica para isso. Deixemos o tempo fazer a parte dele. A conferir.
Mas não adianta: a soberba está na simplicidade. Aliado à nostalgia, Crash Bandicoot N. Sane Trilogy é um poderoso compilado de emoções.

92PS4
Excelente
A soberba de Crash Bandicoot N. Sane Trilogy está na simplicidade. Aliada à nostalgia, essa poderosa coletânea desperta emoções de 20 anos atrás
pontos positivos
  • Forte apelo emocional em função da nostalgia
  • Produto fiel aos originais, altamente saudosista
  • Visual lindo, com carisma, charme e essência mantidos
  • Gameplay praticamente intacto, com o mesmo ritmo e geometria de movimentação dos originais
  • Ótimo valor agregado: a coletânea sai mais barata que qualquer outro lançamento e traz três jogos
  • Três platinas relativamente fáceis para a sua coleção
pontos negativos
  • Fórmula intacta e sem avanços pode afastar marinheiros de primeira viagem (ou não, tomara que seja o contrário!)
  • É basicamente a mesma trilogia de 20 anos atrás em nova roupagem, sem a mesma inventividade ou o impacto de outrora, fato que expõe, infelizmente, o desuso do gênero
  • Detalhes técnicos pontuais como bordas um tanto arredondadas em comparação aos originais, o que gera um pequeno ruído nas seções de plataforma, e física do Crash quando ele está no gelo, mais sensível aqui que nos antecessores
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