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Análise de Hotline Miami

O desfecho de um violento e brutal baile de máscaras


Poucos jogos independentes atingem um público tão vasto quanto Hotline Miami, lançado em 2012 para PC pelo estúdio sueco Dennaton Games. Seja por conta de sua estética impagável ou pela violência desenfreada, o título fez um sucesso tão grande que não ficou apenas nos computadores, recebendo também versões para PS3, PS4 e PS Vita.
Porém, há quem tenha se decepcionado com o enredo da obra: afinal, o game termina de forma misteriosa e muitos pontos da história não foram devidamente explicados. E foi por isso que Jonatan e Dennis – a excêntrica dupla de fundadores e diretores da Dennaton – resolveram desenvolver uma DLC para fechar de vez essa trama sombria.
Durante o desenvolvimento, contudo, o projeto foi crescendo além do previsto e se transformou em um título novo ainda mais complexo do que seu antecessor. Anunciado em junho de 2013, Hotline Miami 2: Wrong Number deixou os fãs na expectativa por quase dois anos até finalmente ser lançado em 10 de março, atingindo simultaneamente as mesmas plataformas que receberam o primeiro capítulo da franquia.
Wrong Number passou por altos e baixos enquanto estava no forno. Vítima de uma polêmica global por conta de uma cena de estupro (presente em uma demonstração liberada inicialmente para a imprensa), o game aterrissa no mercado com uma missão complicada: repetir o mesmo sucesso do jogo anterior sem destoar de seu icônico clima sanguinolento em uma era em que o politicamente incorreto impera em todas as formas de arte.

Um elenco formidável

Enquanto o primeiro Hotline Miami ficou conhecido por sua narrativa minimalista (alguns críticos a consideraram incompleta), Wrong Number chama atenção justamente por dar uma atenção maior aos detalhes do enredo. Por mais que o título originalmente tivesse a ambição de simplesmente explicar melhor a história de Jacket e das misteriosas ligações que o protagonista recebia, a Dennaton resolveu expandir ainda mais o foco da trama inserindo uma série de novos personagens.
Tentando dar o mínimo de spoilers que for possível: HM 2 se ambienta anos após seu antecessor. Tendo desaparecido por completo após suas guerras com a máfia russa, o Jacket passou a ser considerado uma verdadeira lenda em toda a Miami – enquanto alguns acreditam que ele era um simples maníaco com sede de sangue, outros tantos enxergam nele a figura de um destemido herói que limpou os Estados Unidos dos gângsteres estrangeiros.
Nesse cenário, Wrong Number insere o jogador na pele de várias pessoas que, direta ou indiretamente, possuem alguma ligação com as matanças do ex-protagonista. O grupo de jovens conhecidos simplesmente como “Os Fãs”, por exemplo, resolve seguir o legado de Jacket vestindo máscaras de animais e eliminando toda a escória da sociedade – incluindo ladrões, traficantes e outras máfias que controlam a região.
Também acompanhamos a história de Martin Brown, um perturbado ator que protagoniza o filme “Midnight Animal” – cujo enredo é inspirado nos atos de violência cometidos pelo “assassino mascarado”. Já Evan Wright é um jornalista focado em escrever um livro sobre Jacket e não mede esforços para prosseguir com sua investigação, apelando até mesmo para seu amigo Manny Pardo, um detetive que não pensa duas vezes antes de matar criminosos com suas próprias mãos.

Tramas que se encontram

Como você deve ter percebido, Wrong Number apresenta uma variedade impressionante de personagens, sendo que cada um deles pode ser controlado em determinados momentos do game. Naturalmente, eles possuem características bem definidas que ajudam ou atrapalham durante o combate: sendo um simples escritor, por exemplo, Evan é incapaz de usar armas de fogo e se limita a abater seus oponentes com golpes não mortais.
A grosso modo, o título não possui um protagonista bem definido, apresentando várias histórias interligadas ao redor de um mesmo tema. Se por um lado isso impede que você crie uma ligação mais íntima com os personagens, por outro ajuda a criar uma narrativa mais dinâmica e envolvente.
Narrativa esta, aliás, que está mais bem construída do que no primeiro Hotline Miami. Sendo estruturado de forma não cronológica, o roteiro de Wrong Number é capaz prender o jogador de uma maneira que seu antecessor definitivamente não conseguia. Isso sem falar sobre os diálogos caprichados, que dão muito mais personalidade e individualidade aos personagens...

Menos ação, mais planejamento

A Dennaton prometeu e cumpriu: Wrong Number é absurdamente difícil. Sim, ainda mais do que o primeiro HM. Mas isso não é exatamente uma coisa boa, visto que a dificuldade superior não é oriunda de inimigos mais inteligentes ou com armas mais potentes. O que torna o game tão desafiador assim são os campos de batalha, projetados para forçar o jogador a pensar bem mais antes de efetuar qualquer ação.
Enquanto o Hotline Miami original apelava para a ação frenética (apresentando mapas pequenos que incentivavam a matança contínua), o novo título insere os personagens em cenários extensos e abertos, o que o força a criar uma estratégia detalhada para conseguir eliminar os inimigos sem ser massacrado. A impressão que fica é que existe um macete, uma série de movimentos específicos que precisam ser seguidos em cada missão para concluí-la com sucesso.
Não me entenda mal: o objetivo aqui não é simplesmente chorar sobre o game ser difícil demais, mas sim observar o quanto sua jogabilidade é distante daquilo que conhecíamos no primeiro Hotline Miami. Não pense que você sairá vitorioso aqui ao simplesmente correr por aposentos minúsculos distribuindo pancadas aleatoriamente com um taco de baseball; o uso do botão Shift (que amplia seu campo de visão) será essencial em 90% do jogo.

Um pouco de sangue é sempre bem-vindo

Os comandos, ao menos no PC, não sofreram quaisquer alterações: teclas WASD para mover o personagem, Barra de espaço para executar um inimigo caído, botão direito do mouse para pegar (ou arremessar) objetos e direito para atacar. O fator novidade aqui fica por conta das novas armas disponíveis para você praticar os genocídios – há desde armas improvisadas, como skates coloridíssimos, até uma poderosa serra elétrica (e hey, todos nós amamos serras elétricas, correto?).
Em determinado momento da aventura, o jogador é desafiado inclusive a controlar uma dupla simultaneamente e carregar duas armas ao mesmo tempo (uma metralhadora e uma faca, para quando a munição acabar). Indo além, os pequenos detalhes gráficos trazem mais emoção às batalhas: as novas animações são sensacionais (que tal ver a cabeça de um gângster rolando ou um traficante se contorcendo de dor no chão após levar um chute na virilha?) e as interações com o cenário (estantes que podem ser derrubadas, itens que podem ser chutados etc.) tornam Wrong Number ainda mais imersivo.
A boa e velha violência, aliás, está de volta com força total. HM 2 consegue superar também o nível de brutalidade que deu fama ao seu antecessor. Além da polêmica cena de estupro comentada anteriormente, prepare-se para assistir a execuções bastante cruéis – como quatro personagens estourando a cara de um vilão drogado enquanto o próprio diz que só quer ir para casa.

Depois do fim

A trilha sonora fantástica de Hotline Miami foi de grande ajuda para o sucesso estrondoso do game, e seria um grande vacilo da Dennaton não caprichar nesse quesito ao desenvolver Wrong Number. Trazendo também algumas músicas do game original – o que cria momentos de nostalgia pura para quem o curtiu –, HM 2 apresenta um total de 53 canções composta por uma infinidade de artistas distintos, incluindo os talentosos M|O|O|N e Perturbator. É possível inclusive comprar uma cópia digital do CD oficial do título ao adquiri-lo via Steam.
Infelizmente, assim como ocorria no game anterior, HM 2 não é o tipo de jogo que merece ser finalizado mais de uma vez. Ao conclui-lo pela primeira vez, você desbloqueia o Hard Mode – que dificulta ainda mais sua vida adicionando mais inimigos aos cenários – e um editor de mapas que, no fim das contas, acabou não sendo um chamariz tão grande quanto a Dennaton fez parecer em um dos trailers da produção.

Vale a pena?

Por mais que Hotline Miami 2 pise na bola em determinados momentos, o game continua sendo uma obra fantástica e necessária para os fãs que desejam aprender a história da franquia nos mínimos detalhes. Se você curtiu o título original e desejou que ele tivesse mais níveis, mais músicas e mais armas para que fosse possível eliminar hordas de mafiosos de maneiras ainda mais cruéis, Wrong Number com certeza atenderá às suas expectativas.
Apenas tenha em mente que o título é bem mais estratégico e que será preciso enfrentar diálogos extensos durante os intervalos entre os massacres. Isso é algo bom para quem prioriza um enredo bem estruturado e ruim para quem esperava por nada além de mais ação desenfreada. Além disso, não deixe que os cenários extensos e abertos te irritem e você terá boas horas de diversão ao lado dos protagonistas.

85PC
Ótimo
"Ainda mais sangrento e com um enredo envolvente, Wrong Number pisa na bola em certos aspectos, mas não deixa de ser uma sequência digníssima."
 pontos positivos
  • Enredo complexo e instigante
  • Narrativa envolvente, contada através dos olhos de vários personagens
  • Trilha sonora sensacional
  • A boa e velha mecânica do primeiro HM está intacta
  • Novas armas e animações que tornam as batalhas mais divertidas
  • pontos negativos
    • Mapas extensos e abertos demais sacrificam a ação frenética em prol da estratégia
    • Inteligência artificial pouco apurada
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