Análise de Lords Of The Fallen.

Mesmo com boas intenções, Lords of the Fallen é um game somente derivativo

É difícil quando, ao analisar um game, você se vê obrigado a mencionar outro de forma constante. Infelizmente, no caso de Lords of the Fallen, se torna impossível não citar a série Souls (Dark e Demon’s) da From Software, visto que ela serve como uma clara inspiração para o trabalho realizado pela Deck13 Interactive.
Isso não é exatamente um segredo, visto que os responsáveis pelo título deixaram clara sua intenção desde que ele começou a chamar a atenção na mídia internacional. No entanto, é preciso ter o game em mãos para perceber o quanto ele aposta na imitação como uma forma de atrair o público — algo que, conforme o esperado, nem sempre funciona muito bem.
Tivemos a oportunidade de conferir as versões de Lords of the Fallen para o Xbox One e para o PC, o que nos deu uma ideia bastante completa do que o jogo tem a oferecer. Saímos da experiência com um sentimento ambíguo: ao mesmo tempo em que o título é competente, o fato de ele praticamente gritar a palavra “derivativo” constantemente faz com que desperdice muito de seu potencial.

Imitando os mestres

Lords of the Fallen nos apresenta a história de Harkyn, um condenado que foi libertado de sua prisão com um único objetivo: derrotar um exército de criaturas conhecidas como Rhogar e seus campeões conhecidos como Barões. Para isso, você vai ter que explorar ambientes escuros repletos de inimigos que podem matá-lo rapidamente, o que vai exigir uma exploração cuidadosa do ambiente a seu redor.
Embora tenha algumas reviravoltas interessantes, a trama do game não chega a ser exatamente surpreendente e, em muitos momentos, cai em vários clichês do gênero da fantasia medieval. Infelizmente, muito do impacto que a trama poderia ter se perde devido a um roteiro um tanto lento que demora a explicar os objetivos do protagonista e não chega a se aprofundar muito no desenvolvimento de personagens.
Ao iniciar sua aventura, você deve escolher entre três classes (guerreiro, clérigo e bandido) e optar pelo tipo de equipamento inicial. Destas, somente a primeira opção é realmente importante, pois vai definir o tipo de magia que você vai usar durante sua aventura — embora a segunda determine os pontos de estatísticas iniciais, o jogo se mostra versátil o bastante para que você mude sua estratégia a praticamente qualquer momento.
Tal qual acontece na série Souls, Lords of the Fallen possui um sistema de combate mais “pessoal”, no qual você costuma encarar uma quantidade limitada de inimigos de cada vez. O segredo para a vitória geralmente envolve a observação atenta dos movimentos de seu adversário e o uso correto de desvios e bloqueios para atacá-los sem que eles possam revidar — jogar de maneira descuidada geralmente resulta em uma morte quase imediata.
Inimigos abatidos concedem pontos de experiência e itens, que são distribuídos de forma aleatória ao jogador. Caso você morra, seu personagem é enviado automaticamente ao último ponto de salvamento e deixa no local de seu corpo toda a experiência acumulada até o momento, que vai diminuindo conforme você demora a recuperá-la.
Somado ao fato de que, quando o jogador morre, todos os inimigos da área voltam à vida, isso faz com que o sentimento de urgência por recuperar seu progresso atue contra você. Afinal, na correria para recuperar o máximo possível de experiência, você pode ser abatido por algum inimigo que se aproveitou de sua falta de cuidado naquele momento.

Desafio aquém do esperado

Embora a descrição acima se encaixe muito bem em qualquer título recente da From Software, não demora muito até que você note as diferenças que fazem com que Lords of the Fallen seja uma experiência inferior. Apesar de não ser exatamente fácil, o jogo está longe de ser tão punitivo quanto os títulos da franquia Souls, o que contribui para criar uma experiência menos rica e envolvente.
Caso você opte por equipar um escudo em seu personagem, por exemplo, ele vai receber uma quantidade muito pequena de danos contanto que possua energia suficiente para suportar os golpes inimigos. E, mesmo em situações mais desesperadoras, dificilmente você vai encontrar algum inimigo que não lhe dê tempo suficiente para fugir ou para usar algum item de cura (ou correr em direção ao último ponto de salvamento).
Outra diferença (ao menos em relação a Demon’s Souls) fundamental está na maneira como você lida com seu inventário: embora todos os equipamentos possuam alguma espécie de peso, esse fator só entra em jogo quando você equipa uma opção em seu personagem. Assim, em nenhum momento há a dúvida sobre o que carregar ou não: simplesmente pegue tudo o que surge pelo caminho e vá experimentando até achar uma combinação que funcione.
Essa parte também se diferencia pelo fato de que o acesso à janela de gerenciamento paralisa totalmente a ação do jogo, o que diminui em muito seu clima de tensão. Entrou em uma batalha contra um chefe com um item errado? Não se preocupe, ele vai esperar o tempo que for necessário até que você encontre aquele machado especial e mude suas armaduras para ficar mais leve.
Isso não quer dizer que Lords of the Fallen não seja um jogo desafiador — mortes contra chefes são praticamente garantidas, e confiança demais geralmente vai fazer você perder uma boa quantidade de vida até mesmo para o inimigo mais fraco. No entanto, a falta de variedades de comportamentos entre os adversários (a mesma tática de circulá-los à distância funciona bem do começo ao fim da aventura) e algumas decisões de design fazem com que a aventura logo deixe de ser intimidadora.
Infelizmente, uma nova comparação com a série Souls se mostra inevitável: os pontos nos quais o título da Deck13 faz mudanças resultam em uma experiência mais fraca e menos marcante. Somados a uma ambientação mais genérica (que em muito lembra o estilo da série World of WarCraft), esses elementos resultam em um título que parece um “Dark Souls ocidental voltado a jogadores que procuram uma experiência mais acessível”.

Bugs, glitches e outros problemas

O principal problema de Lords of the Fallen não é o fato de ele ser derivativo, mas sim o fato de ele contar com diversos problemas de execução em quesitos técnicos. No Xbox One, por exemplo, a taxa de quadros por segundo do jogo varia de maneira constante e parece que a ação “engatinha” em alguns momentos.
Em um PC poderoso, isso não chega a acontecer, o que garante uma experiência mais fluida e, por que não, divertida. No entanto, quem jogar no computador vai ter que se deparar com um inimigo mais difícil, imprevisível e frustrante do que qualquer adversário da aventura: o executável do game, que para de funcionar sem aviso e pode fazê-lo perder uma grande parte de seu avanço pela trama.
Nos momentos em que tudo funciona de maneira apropriada, é difícil não prestar atenção aos efeitos de iluminação ou às partículas que permeiam os ambientes. Embora a ambientação não seja exatamente original (conforme já destacamos anteriormente), o mundo do jogo é bem construído e possui partes coerentes entre si — mesmo quando o jogador é enviado a uma espécie de dimensão alternativa.
Infelizmente, não é somente no quesito gráfico que o game apresenta alguns bugs notáveis. Animações de inimigos e chefes muitas vezes não são executadas da maneira correta — o que os “congela” e permite que o jogador ataque livremente —, e o sistema de colisão do título muitas vezes parece incoerente. Isso se mostra especialmente evidente durante o uso de magias: o mesmo disparo pode tanto passar pela armadura de um inimigo quanto ser bloqueado por ele ou simplesmente desaparecer no ar sem maiores explicações.
Embora tudo possa ser corrigido por patches de atualização (e espero sinceramente que isso ocorra), no momento atual esses problemas não contribuem muito a favor do jogo.  A impressão que fica é a de que o estúdio decidiu deixar um pouco de lado a oportunidade de polir um pouco mais a experiência para não ter que lançar o título muito próximo à data que blockbusters como Grand Theft Auto VCall of Duty: Advanced Warfare e Dragon Age: Inquisition chegam às lojas.

Vale a pena?

Deixando de lado as comparações com a série Souls por algum instante, fato é que Lords of the Fallen é um jogo que pode ser considerado bom. Mesmo com alguns problemas de design e de desempenho, o título não decepciona e se mostra um entretenimento divertido — por mais que você vá se esquecer de metade de sua trama a partir do momento em que desligar seu console ou computador.
Infelizmente, é difícil escapar da associação entre o título e os trabalhos da From Software, o que faz com que ele perca muito de seu impacto. Como afirmamos anteriormente, a experiência criada pela Deck13 é simplesmente derivativa e, nos pontos em que aposta em alguma mudança, quase sempre faz isso de forma a lhe trazer prejuízos.
Caso você esteja realmente sedento por um jogo da série Souls adaptado à nova geração de consoles, dificilmente vai sair decepcionado da experiência — embora certa insatisfação seja praticamente uma garantia. Já quem acha a série japonesa muito difícil, tem aqui a chance de explorar algumas de suas mecânicas — mesmo que ao custo do sentimento de conquista único proporcionado pelo avanço em uma área desafiadora ou por finalmente vencer um chefe após horas de tentativas.
Em resumo, Lords of the Fallen cai no mesmo problema de outras obras derivativas: ao se inspirar demais no trabalho feito por outra equipe, a equipe da Deck13 parece ter perdido a perspectiva do que torna os jogos da From Software únicos. Com isso, acabamos em mão com um jogo que parece um “primo mais pobre” — e que, como tal, pode até mesmo divertir, mas simplesmente não é a mesma coisa que experimentar o produto original.


65Xbox One
Regular
Tentando imitar demais as qualidades de Dark Souls, game perde a perspectiva do que torna única a franquia da From Software
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